O Hermeti pediu neve, mas por enquanto o Papai Noel so providenciou neblina. Para tristeza dos milhares de viajantes que vao passar o Natal em brancas nuvens (literalmente), ja que os aeroportos estao fechados para pouso e decolagem e a previsao de melhora e so para o dia 26.

Uns dias atras a Michelle deixou um comentario no blog, perguntando se o Natal aqui era bonito. Pois e, eu sempre achei que fosse, mas a nada festiva realidade e que ele e bem mixuruca.
Mal-acostumados que somos em deduzir que a Inglaterra e um pais parecido com os EUA, vemos aquelas luzes espetaculares de Nova Iorque no Jornal Nacional e e natural concluirmos que em Londres seja igual.
Quem conhece os dois paises sabe que nao poderiam ser mais diferentes e o departamento decoracao de Natal nao e excecao. Enquanto os americanos competem para ver quem consome mais watts, os ingleses se limitam a colocar uma luzinha discreta na arvore e pendurar uma meia na lareira. Luzes para fora de casa, no jardim ou na fachada, nunca vi. Desconfio que seja proibido.
A decoracao das ruas acompanha a mesma tendencia. Guardadas as devidas proporcoes, a iluminacao de Natal da Rua Direita de Pinhal nao fica devendo nada a da Oxford Street, a principal rua comercial de Londres. Com tantos parques na cidade, nenhuma arvore a la Ibirapuera ou lagoa Rodrigo de Freitas...
Tudo muito ecologico e low profile, mas tambem muito boring.
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Sair debaixo das cobertas como?
Rainy Day by Hermeti
Razoes pelas quais eu adoro morar numa high street (ver descricao de high street nesse outro post): musica tradicional de Natal, ao vivo, embaixo da nossa janela, todo sabado e domingo de dezembro.
Razoes pelas quais as vezes irrita um pouco morar numa high street: musica tradicional de Natal, embaixo da nossa janela, com amplificador, comecando as nove e meia da manha do sabado, quando voce foi para cama as tres da madrugada na sexta.
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Ontem presenciei meu primeiro blecaute na Inglaterra. Tecnicamente nao deveria escrever blecaute, ja que foi um "corte de energia programado". O problema e que programaram, mas esqueceram de avisar, entao o efeito pratico foi o de um apagao, mesmo. Como todas as nossas fontes extra-corporeas de calor dependem de eletricidade, os cinco graus outonais nos obrigaram a sair de casa.
Nesses meses em que escurece muito cedo, todo fim de semana a triste e engordativa rotina se repete: acordamos um pouquinho tarde e ate resolvermos o que fazer com as quatro horas de claridade restantes, ja escureceu e acabamos enfurnados, comendo chocolate e tomando vinho alem das doses recomendadas.
Pois o "apagao programado" fez com que desentocassemos e aproveitassemos um pouquinho do tanto que Londres tem a oferecer. E ontem ate sol tinha! Saimos rumo a National Portrait Gallery, mas o clima em Trafalgar Square estava tao bom, que acabamos sentados na escada, absorvendo o solzinho e tirando foto da galera na praca.
Trafalgar Square, meio dia: as sombras acusam a posicao do sol.
Depois, passeamos pela beira do Tamisa, tentando driblar a multidao de turistas e outros londrinos "desentocados" como nos, e, finalmente, buscamos refugio do vento no Tate Modern, que esta com uma instalacao divertidissima de tobogas gigantes.
Tobogas no Tate Modern
Quando saimos, as quatro horas, ja estava escuro, e o jeito foi voltar para casa, torcendo para que a luz tivesse voltado. E tinha. E enchemos a cara de chocolate e vinho. Mas so um pouquinho...
Millenium Bridge as 4:15h. O sol ja era.
Esse nao foi um fator decisivo na escolha do nosso apartamento aqui em Londres - foi mais uma questao de agarrarmos o primeiro em que o fogao ficasse a mais de um metro e meio de distancia da cama - mas a existencia de uma livraria do outro lado da rua foi muito bem vinda.
Morar num lugar tao apertado exige de brasileiros espacosos varias adaptacoes e mudancas de habitos. Uma delas e transformar a vizinhanca numa extensao do lar. Assim, o parque vira quintal, o supermercado vira despensa e freezer, a area de servico fica na saudade e a livraria vira refugio.
Refugio do vento frio no inverno e da falta de vento no verao (o melhor ar-condicionado da rua, disparado). Refugio nas horas de briga, nos dias de pouca inspiracao e nos momentos de tedio.
Dificil e resistir a tentacao. Livro por aqui e artigo relativamente barato e - ao contrario do que acontece no Brasil - entra sempre em promocao. Por dez libras (R$40), o preco de dois "numeros" no Mc Donalds, voce compra tres livros paperback (de "capa mole") em qualquer livraria de rede.
Mas prometi que so vou comprar outro livro quando a minha relacao livros comprados / livros lidos melhorar um pouco. Ontem consegui terminar o delicioso Vanity Fair, mas ainda restam cinco, pela metade, que ja povoam meu criado-mudo ha meses, alem de uns tres ou quatro, nem comecados, na estante.
Na promocao de janeiro, quem sabe...
O outono chega (discretamente) ao hemisferio Norte, e com ele mais um dilema fashion para para mim - brasileira, indecisa e nao muito fashion - que ja sofre para combinar a parte de cima com a parte de baixo do biquini.
E verdade que por estas bandas ninguem se da ao trabalho de desviar o olhar - virar a cabeca, entao, esta fora de cogitacao - para reparar na sua roupa (a nao ser que voce esteja usando um maio de lycra por cima de uma meia calca arrastao e um sapato de salto agulha, como eu vi num HOMEM, de bigode, duas semanas atras na Oxford Street), mas um esforco minimo para seguir as tendencias ha de ser feito.
O problema e que seguir tendencias por aqui - e olha que eu nem tenho pretensao de "estar na moda" -, qualquer que seja seu estilo, envolve coordenar, no minimo, umas sete pecas de roupa diferentes.
Comecando de baixo temos a bota, sem salto ou de salto altissimo, englobando a barra da calca jeans, apertadissima, daquelas que ancas brasileiras nao adentram com elegancia. Subindo um pouco mais vem o cinto, acessorio importantissimo, que pode salvar ou destruir um look, e do qual eu nao possuo nenhum exemplar - so para me garantir!
A "blusa principal", seja ela de malha, linha, tecido ou paete tem que ser relativamente espacosa para conter as duas regatas sobrepostas que devem ser usadas por baixo dela; e ter um decote consideravel, de modo a expor as tais regatas.
Por cima da blusa principal vem um casaquinho - o obrigatorio cardiga - de trico, geralmente mais curto que a blusa. Este ano, a moda dita que seja de la grossa e ponto largo.
Cobrindo todas essas camadas vem o casaco (finalmente, ja estava com frio!), que pode ser de materiais e comprimentos variados, mas sempre em tons escuros. Dizem que este inverno vai ser moda casaco de manga 3/4 para ser usado com luva comprida, mas ainda nao vi nenhum perambulando pela rua.
Apos quatro horas, sete crises de choro e uma montanha de roupa em cima da cama, digna de ser escalada, voce consegue (ou nao) coordenar em harmonia todas essas pecas. E dai... o dilema recomeca. Agora "so" faltam os brincos, os colares, as pulseiras, o lenco, a echarpe e a bolsa. (Grande parte do seu senso fashion e julgado com base na sua capacidade de "acessorizar" adequadamente.)
Os detalhes da maquiagem (sombra roxa vai ser tudo nesse outono!) e do cabelo, que nao sou capacitada para discutir, dada minha total ignorancia do amplo espectro de produtos capilares disponiveis no mercado, ficam para uma proxima estacao.
Enquanto ela nao chega, fico admirando e tento aprender com as inglesas, e seu incrivel talento para gerarem um novo look por dia, sem o minimo esforco (visivel), ao mesmo tempo em que mantem um estilo individual e inimitavel.
Hoje vui tirar meu visto da Índia. Ao chegar no consulado, uma fila enorme, mas a mulher na minha frente, despachada e prestativa, percebendo que eu estava no lugar errado, foi logo mostrando a portinha onde eu deveria entrar. Lá dentro, outra escutou minha conversa-interrogatório com o “oficial” e enquanto esperávamos o visto sair, sentou-se do meu lado e, sem a menor cerimônia, começou ela a me interrogar. Contou a história da sua vida e, em troca, queria saber tudo da minha. Me senti no Brasil.
No metrô de volta para casa, conforme o trem se afastava do centro, as pessoas foram descendo, até que sobramos uma senhorinha e eu, sentadas lado a lado no vagão vazio. O silêncio implorava por um comentário bobo, um sorrizinho simpático, um sinal qualquer de reconhecimento mútuo da ironia da situação. Por alguns segundos ela ainda ficou na dúvida se mudava de assento ou não, mas acho que sucumbiu ao medo de desequilibrar-se durante a manobra e contentou-se em suspirar, virar o rosto para o outro lado e afastar seu ombro do meu. Me senti na Inglaterra novamente.
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Pela primeira vez na história, uma região da Inglaterra é povoada por mais imigrantes que ingleses. Quase 52% da população de Wembley, bairro no norte de Londres, nasceu na Índia. De 1991 a 2001 mais de um milhão de pessoas vindas, literalmente, de todos os cantos do mundo, migraram para cá. (Nossa pequena família, portanto, ainda não está incluída nessa estatística.)
Nem precisava da pesquisa para comprovar essa hiper-diversidade escancarada que faz Londres tão singular entre as grandes capitais. Em quase dois anos aqui, nunca tive aquela sensação de peixe fora d'água, natural quando estamos num país que nåo o nosso.
Numa sexta-feira å noite, voltando para casa de metrô, brinquei com o Hermeti: "Quem for inglês nesse vagão levanta a mão!". Entre as vinte e poucas pessoas em questão tinha de tudo: australianos (fácil de reconhecer pelos chinelos de gosto duvidoso), poloneses (meninas loiras com cara de atendente do Starbucks), italianos (de dia, procure pelos óculos escuros gigantescos), japoneses (sempre super fashion), além de nós brasileiros (havaianas, bunda, unha do pé não pintada de esmalte cintilante) e os onipresentes asiáticos (difícil dizer se paquistaneses, hindus, bangladeshi ou do Sri-Lanka). E isso por que moramos num bairro predominantemente "inglês".
Estereótipos a parte, é reconfortante morar num lugar onde é possível "blend in" (não consigo achar um sinônimo satisfatório) tão facilmente. E só temos a agradecer aos ingleses que, apesar da fama de antipáticos e frios, (geralmente) acolhem de braços abertos este multiculturalismo.
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Finalmente resolvi dar uma espiada no site We're Not Afraid, criado horas após os atentados ("incidentes" para os eufemistas) do dia sete de julho. Sinceramente não vejo muito sentido. Parece mais uma desculpa para os exibicionistas de plantão infiltrarem suas imagens num site de alcance global. Além de, obviamente, servir como ótima ferramenta de auto-promoção para os (dezesseis!!!) colaboradores oficiais.
Qual extremista muçulmano que se preze, prestes a embarcar para o paraíso, de quebra mandando para o inferno algumas dezenas de "infiéis", vai se sentir intimidado pela foto de um beagle vinda da França? E também não vejo como meia dúzia de layouts fajutos vão me dar coragem para adentrar novamente os claustrofóbicos e vulneráveis túneis do metrô.
Fui evacuada de uma estação minutos após as explosões mal-sucedidas do dia vinte e um e posso garantir que "afraid" era o que as pessoas mais estavam. A calma do dia sete tinha desaparecido e o pânico transparecia na pressa com que os passageiros corriam para as escadas rolantes tentando alcançar a suposta segurançå da superfície.
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Como uma londrina (de passagem), sou obrigada a aceitar o desafio do meu irmão e comentar sobre os ataques terroristas desta manhã.
Todos estão mencionando a calma dos londrinos nos momentos que sucederam os ataques. A maioria continuou trabalhando normalmente. Quando, no meio da tarde, ficou claro que o metrô não voltaria a funcionar, foram então se encaminhando, sem muita pressa nem tumulto, para casa.
No trem que peguei, grupos de amigos conversavam banalidades, alguns homens bebiam cerveja e incontáveis passageiros tentavam resolver o Sudoko do dia . Apesar da pequena batalha travada em cada estação entre passageiros que tentavam descer e outros que tentavam subir no trem, não havia tensåo no ar. Nem se ouvia o esperado "a mulher do irmão do cunhado da vizinha do meu avô estava no ônibus que explodiu e falou que..."
Acredito que muita dessa calma tenha sido transmitida pelas equipes de emergência, que trataram do incidente com tanta eficiência. No hospital em que trabalho, por exemplo, meia hora depois da última bomba ter estourado, o pronto socorro e o centro cirûrgico já estavam livres para receber eventuais feridos, leitos tinham sido liberados, e até nós, fisioterapeutas, tinhamos um plano de ação específico pré- determinado.
Mas para muitos - eu inclusive - a ficha ainda não caiu. Ao longo da próxima semana, na medida em que os detalhes forem sendo revelados, talvez essa calma onipresente dê lugar a sentimentos mais condizentes com a situação e as imagens na televisao não pareçam tão surreais.
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Morar numa High Street tem suas (muitas) vantagens. Tudo o que você precisa, seja uma caneta, uma garrafa de vinho, uma calça jeans ou uma passagem para o Brasil (que tentação!) fica a menos de cem metros da sua porta. As estações de metrô também não costumam ser longe e os ônibus passam com freqüência. Nos momentos de tédio, espiar pela janela o trânsito e o vaivém dos pedestres é diversão garantida. Graças ao movimento dos restaurantes, andar sozinha å noite fica bem mais seguro.
Mas quando os restaurantes e pubs fecham e você não escuta mais os grupo de amigos correndo para pegar o último ônibus, sobram os irritantes, imprevisíveis e hipersensíveis alarmes. Cada loja, que durante o dia fora tão útil e necessária, transforma-se agora numa potencial ameaça ao seu sono.
Noite passada foi o do Starbucks aí de cima, disparado por uma revista jogada contra sua porta. Há alguns meses, um misterioso, que nunca encontramos, manifestava-se toda noite, das sete, oito horas até a manhã seguinte, quando a loja reabria. Nem a noite de Reveillon passou ilesa.
Com o tempo passamos a reconhecê-los pela distância, freqüência e qualidade do barulho, mas nos acostumarmos, impossível.
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Como todo(a) londrino(a) que se preza, já desenvolvi uma relação de amor e ódio com o metrô local, o icônico "London Underground". Depois do clima, o segundo tema mais requisitado para preencher aqueles silêncios constrangedores de falta de assunto que insistem em invadir qualquer prosa, é o transporte local.
Tenho certeza que "Where do you travel from?" (seguindo "It's absolutely miserable outside!") é a segunda frase mais dita numa conversa entre duas pessoas que acabaram de se conhecer. (Uma vez que você já sabe de onde a pessoa "viaja", segue-se somente com "It's absolutely miserable outside!" nos encontros subsequentes.) Aliás, engraçadíssimo eles usarem o termo "viajar". Basta você entrar num trem para sua jornada de dois quilômetros até o trabalho ser elevada ao status de "viagem". Coisas de inglês...
Amo poder confiar na onipresença do metrô na cidade e saber que em qualquer bairro, por mais perdida ou distante que esteja, encontrar uma estação de metrô equivale a encontrar a porta de casa.
Odeio os atrasos, que, de tão frequentes se tornam comuns, e sempre acontecem naqueles dias em que você resolveu dormir mais dez minutinhos e já está atrasada para o emprego. Aliás, quem inventou a expressão "pontualidade britânica" estava, claramente, desinformado.
Adoro como as pessoas, sem pudor nenhum, transformam os vagões em extensões de suas casas. Mulheres se maquiando com toda a parafernália a que têm direito, estudantes atrasados fazendo tarefa, gente trocando de sapato, saboreando refeições completas, dormindo, falando sozinho, cantando.
Mas odeio quando as pessoas começam a se sentir å vontade demais e cortam a unha (argh!!), sentam no chão do vagão atrapalhando o fluxo e, dormindo, começam tombar a cabeça em direção seu desavisado ombro.
Amo o Metro, o jornalzinho distribuído gratuitamente todas as manhãs que, apesar de não passar de um tablóide disfarçado, é providencial para os dias em que você esqueceu seu livro (acessório essencial para se sentir em sintonia com os outros passageiros). Mas se você está num daqueles dias de atraso e não conseguiu pegar o "Metro", observar os outros passageiros tentando ler o jornal ou a revista do vizinho - principalmente se for de fofoca ou de esporte - é diversão garantida.
Infelizmente, ainda choca a falta de cavalheirismo e bom senso generalizada. Em mais de um ano de viagens diárias, nunca presenciei ninguém oferecendo o assento para idosos, gestantes e afins. Uma vez ofereci meu lugar a uma grávida de uns oito meses e ela ficou tão surpresa que não sabia, por um momento, se aceitava ou não. Tal a gravidade da situação, que o próprio metrô disponibiliza um broche redondo enorme, escrito "Baby on Board" para as grávidas dispostas a pagarem o mico (mas garantirem um assento) usarem. Só na Inglaterra, mesmo!
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