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Care for a cuppa?

Vou aproveitar para escrever num dia de sol, porque senão começo a divagar sobre o clima novamente, fico de mau humor, e acabo fazendo injustiça a essa terra chuvosa, porém bela, que me recebe.

Um dos hábitos ingleses fáceis de pegar quando se mora aqui é o de tomar chá. Mas não o famoso chá das cinco, que eu, pessoalmente, nunca presenciei. O chá das nove, quando você chega com frio no trabalho, o chá das dez e meia, uma prévia do intervalo do almoço, o chá depois do almoço, para pôr a prosa em dia, o chá das quatro, que dá forças para encarar o resto do expediente. Daí tem o chá das seis, quando você chega em casa com os pés molhados, o chá das oito, quando tem visita, e o chá das onze, para embalar o sono.

Reconfortante e companheiro quando tomado a só, boa desculpa para encontros em geral; com bolacha, torrada ou bolinho, então, não tem bebida melhor, nem mais inglesa.

Feijão com arroz

Apesar da inspiração para começar este blog ter vindo das minhas investidas no mundo da culinária, tenho que admitir que estou jogando a toalha, ou melhor, o pano de prato.

E não é por preguiça ou falta de força de vontade, não! Tá bom, talvez um pouco de preguiça... Mas o motivo principal, tenho que confessar, é financeiro.

Minha mãe quando cozinha, cozinha muito bem, mas não é fanática. Troca facilmente o fogão por qualquer outro programa. Assim sendo, nao herdei uma, digamos, desenvoltura na cozinha. Sempre fui interessada (como ela também é), fazendo cadernos, comprando livros, buscando receitas na internet, mas sempre empaquei no essencial: a execução.

Culpava o luxo de sempre ter tido cozinheira em casa pelo meu fracasso e, ingenuamente pensava que quando mudasse para a Inglaterra tudo ia mudar, que ia aprender na marra. Pois é, confesso que tentei. Trouxe minha panela de pressão do Brasil, trouxe minhas frigideiras e minhas assadeiras. Com o Her de co-piloto aprendi a fazer feijão (arroz eu já sabia), canja, lasanha, strogonoff e creme de milho. Dei umas arriscadas em risotos, currys e stir-frys.

Tudo indo razoavelmente bem, apesar da ocasional falta de inspiração, quando percebi que, por dia, gastávamos mais em ingredientes para fazer o jantar, do que gastávamos no almoço, comendo em restaurantes. Fora o trabalho, a louça suja, os gastos com água e eletricidade.

Daí percebi porque os ingleses só comem comida pronta; e fui obrigada a aderir. Não é tão mau quanto parece. Aliás, não é nada mau. É só saber escolher. Continuo fazendo arroz e feijão, mas as minhas carnes agora têm nomes chiques: peito de frango å provençal, cordeiro com alecrim, salmão recheado com espinafre e manteiga de limão, e por aí vai.

Gasto menos, como bem e nem preciso lavar muita louça.

Cuscuz

Algumas semanas atrás, cozinheira de primeiras viagens, procurando uma receita na internet, aconteceu: o quadradinho da busca me cobrando um ingrediente e eu, estática em frente a tela, sem lembrar como escrever “cuscuz”. Na geladeira, o próximo ingrediente na fila, ansioso para virar comida, era uma solitária beringela; e o quadradinho intrometido lá, testando meu português novamente.

E assim, graças a esse episódio genuinamente sem graça, entre tantos outros que povoam meus dias de folga, vim parar aqui, para me obrigar a escrever mais.
O quê escrever é a grande dúvida, mas com o tempo vou descobrindo. Prometo para mim mesma e para quem mais estiver lendo (se é que tem alguém aí), resistir a tentação de apagar tudo na primeira releitura, que será exatamente daqui a dez ou doze minutos…

Embora chegando atrasada, ainda estou meio perdida nesse mundinho novo, do qual eu já jurei de pé junto nunca fazer parte... Então por enquanto fica assim, branco no preto, até o Her deixar tudo mais bonito.

PS: Para quem ficou curioso, o cuscuz marroquino continua na prateleira, já que as poucas receitas que encontrei envolviam a compra de especiarias obscuras, fadadas a nunca serem usadas novamente. A beringela virou uma panela de minestrone de proporções obscenas, que o Hermeti não gostou e que fui obrigada a tomar sozinha por quatro dias consecutivos.


 

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